Por que tratar pessoas como indivíduos ainda é um desafio na saúde?

A medicina vive mais uma transformação

Atualizado em 07/08/2026 às 17:08, por Jaqueline Falcão.

homem de terno cinza e gravata amarela

Dr. Luiz Carlos Calmon                                  crédito: divulgação

Dr. Luiz Carlos Calmon

A medicina vive mais uma transformação. Durante décadas, aprendemos a tratar doenças a partir de protocolos padronizados, construídos para atender grandes grupos populacionais. Essa lógica foi fundamental para o avanço da saúde moderna e continua tendo papel indispensável em inúmeras situações clínicas. Mas existe uma pergunta que tem ganhado cada vez mais relevância dentro dos consultórios: até que ponto pessoas diferentes podem ser tratadas exatamente da mesma forma?

Embora dois pacientes possam receber o mesmo diagnóstico, isso não significa que apresentarão os mesmos sintomas, responderão da mesma maneira aos medicamentos ou possuam as mesmas necessidades terapêuticas. A prática clínica demonstra diariamente que fatores como idade, composição corporal, histórico familiar, perfil hormonal, estilo de vida e até aspectos emocionais influenciam diretamente os resultados de um tratamento.

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É justamente desse entendimento que nasce a medicina personalizada.

Ao contrário do que muitas pessoas imaginam, medicina personalizada não significa necessariamente utilizar tecnologias sofisticadas ou tratamentos complexos. Em sua essência, trata-se de um conceito simples que é reconhecer que cada paciente é único e que as decisões médicas devem considerar essa individualidade.

De certa forma, estamos resgatando um princípio que sempre esteve na base da boa prática médica. Antes da industrialização dos medicamentos, era comum que as prescrições fossem preparadas de forma individualizada para cada paciente. Com o avanço da indústria farmacêutica, passamos a contar com medicamentos padronizados, que trouxeram enormes benefícios para a população. O desafio hoje em dia é equilibrar essas duas realidades e manter os avanços da medicina baseada em evidências sem perder de vista as características individuais de cada pessoa.

Essa discussão é especialmente importante quando falamos de saúde hormonal.

Uma mulher não possui o mesmo perfil hormonal ao longo de toda a vida. Puberdade, fase reprodutiva, gestação, climatério e menopausa representam momentos biológicos completamente diferentes. Da mesma forma, homens também podem apresentar alterações hormonais que exigem avaliações individualizadas. Por isso, em muitas situações, não existe uma única resposta correta para todos os pacientes.

A mesma condição clínica pode ser tratada por diferentes vias de administração, diferentes medicamentos e diferentes estratégias terapêuticas. Algumas pessoas se adaptam melhor aos comprimidos. Outras apresentam melhores resultados com géis, adesivos, injeções ou implantes. O papel do médico é justamente avaliar qual opção faz mais sentido para cada caso.

Isso não significa abandonar protocolos ou ignorar critérios científicos. Pelo contrário. A individualização só é possível quando existe conhecimento técnico, acompanhamento adequado e decisões fundamentadas em evidências.

 

Infelizmente, parte do debate público sobre terapias hormonais tem sido conduzida de forma excessivamente simplificada.

Dr. Luiz Carlos Calmon

Muitas vezes, tecnologias e ferramentas terapêuticas passam a ser julgadas de maneira genérica, sem que se considere a diversidade de indicações, pacientes e contextos clínicos envolvidos. A discussão mais importante não deveria ser qual ferramenta está sendo utilizada, mas sim se ela está sendo indicada corretamente, para o paciente certo, no momento adequado e com acompanhamento médico responsável.

Também é importante reconhecer que a medicina personalizada ainda representa um desafio de acesso. Em muitos casos, tratamentos individualizados exigem profissionais especializados, acompanhamento mais próximo e recursos que nem sempre estão disponíveis para toda a população. Isso cria uma reflexão necessária: como ampliar o acesso à personalização sem comprometer a qualidade e a segurança do cuidado? Essa é uma das grandes questões da medicina contemporânea.

O futuro da saúde provavelmente não será construído pela substituição dos modelos tradicionais, mas pela convivência entre diferentes estratégias terapêuticas. Haverá situações em que protocolos padronizados continuarão sendo a melhor escolha. Em outras, a individualização será essencial para alcançar resultados mais eficazes e seguros.

No fim das contas, a medicina personalizada não trata apenas de hormônios, exames ou tecnologias. Trata-se de algo muito mais simples e fundamental que é lembrar que por trás de cada diagnóstico existe uma pessoa com características, necessidades e expectativas próprias. E talvez esse seja o maior desafio da medicina moderna: continuar evoluindo sem perder a capacidade de enxergar cada paciente como indivíduo.

*Dr. Luiz Carlos Calmon é ginecologista e especialista em reposição hormonal