Os cânceres de boca e orofaringe são alertas que os homens não podem mais ignorar
Por Guilherme Ambar, biólogo e CEO da Seegene Brazil
Guilherme Ambar crédito: Divulgação
Quando falamos em prevenção do câncer, é comum que algumas campanhas despertem maior atenção da população por estarem historicamente associadas a públicos específicos. O HPV, por exemplo, sempre ocupou um espaço importante nas discussões sobre a saúde da mulher por sua relação com o câncer do colo do útero. No entanto, as evidências científicas e os dados epidemiológicos mais recentes mostram que esse debate precisa ser ampliado. A saúde do homem também deve estar no centro dessa conversa.
A publicação Estimativa 2026 – Incidência de Câncer no Brasil, do Instituto Nacional de Câncer (INCA), traz um dado que merece atenção: o câncer de cavidade oral ocupa a quinta posição entre os tipos de câncer mais frequentes na população masculina brasileira, excluindo os tumores de pele não melanoma. São estimados cerca de 12.260 novos casos por ano em homens, o equivalente a aproximadamente três em cada quatro diagnósticos dessa doença no país.
Outro dado também chama a atenção. O INCA estima 3.910 novos casos de câncer de orofaringe em homens em 2026, contra 940 em mulheres, o que representa uma incidência aproximadamente quatro vezes maior no sexo masculino. A taxa bruta estimada é de 3,74 casos por 100 mil homens, enquanto a taxa ajustada (quando eliminada a população idosa) é de 2,64 por 100 mil. Embora não esteja entre os tumores mais incidentes do país, o câncer de orofaringe merece atenção especial porque uma parcela significativa desses casos está associada à infecção pelo papilomavírus humano (HPV).
Historicamente, os homens procuram os serviços de saúde com menor frequência do que as mulheres
A atenção também deve ser redobrada em pessoas que vivem com HIV. A infecção pelo HIV está associada a uma maior prevalência de HPV, especialmente em razão de alterações na resposta imunológica, e a imunossupressão é reconhecida como um fator de risco para alguns cânceres. Isso reforça a importância do acompanhamento regular e da prevenção integrada, que considere não apenas o controle do HIV, mas também a identificação e o acompanhamento de outras infecções e fatores associados ao desenvolvimento de câncer.
Boa parte dos fatores de risco é conhecida e modificável. O tabagismo continua sendo um dos principais responsáveis pelo desenvolvimento dos cânceres de cabeça e pescoço. Quando associado ao consumo frequente de bebidas alcoólicas, o risco aumenta significativamente. No caso específico da orofaringe, porém, cresce a participação do HPV como importante agente associado ao desenvolvimento da doença, o que torna ainda mais relevante discutir prevenção, vacinação e diagnóstico.
Nesse contexto, os avanços da biologia molecular representam uma oportunidade importante para a saúde pública. Os testes moleculares, disponíveis inclusive na rede pública de saúde, permitem identificar a presença do HPV com elevada sensibilidade e precisão, contribuindo para ampliar o conhecimento sobre a circulação viral, apoiar estudos epidemiológicos e oferecer informações que podem orientar estratégias de prevenção cada vez mais efetivas. À medida que acumulamos mais evidências sobre o comportamento do vírus na população, ampliamos também a capacidade de formular melhores políticas públicas.
O retrato apresentado pelo INCA deixa uma mensagem inequívoca: os cânceres que acometem a cavidade oral e a orofaringe exigem cada vez mais atenção da população masculina. Mais do que tratar o câncer, precisamos fortalecer uma cultura de prevenção baseada em informação, ciência e inovação.
*Guilherme Ambar, biólogo e CEO da Seegene Brazil







