Artigo: Fones no máximo, risco permanente: a perda auditiva avançando entre jovens

Atualizado em 08/04/2026 às 13:04, por Jaqueline Falcão.

moça com fone de ouvido branco nas mãos

Jovem com fone de ouvido: é preciso atenção - imagem: Free Image/ Foundry - Pixabay

Por Erica Bacchetti, fonoaudióloga e gerente de Audiologia da AudioNova

Mais de 1 bilhão de jovens adultos no mundo estão em risco de desenvolver perda auditiva permanente e evitável por práticas de escuta inseguras, principalmente volume alto em fones de ouvido e exposição frequente a ambientes ruidosos. O dado, da Organização Mundial da Saúde (OMS), é um alerta direto para uma geração que passa horas conectada a conteúdos de áudio e convive com níveis de ruído cada vez maiores no cotidiano.

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No Brasil, o cenário exige atenção redobrada. A perda auditiva afeta pelo menos 10 milhões de brasileiros, segundo o IBGE, mas há forte subdiagnóstico. Muita gente não se reconhece como pessoa com deficiência auditiva ou ainda não foi avaliada de forma adequada, o que faz com que estimativas sejam significativamente mais altas. 

O problema não é pontual — é estrutural e tende a crescer. A própria OMS projeta que, até 2050, quase 2,5 bilhões de pessoas terão algum grau de perda auditiva e mais de 700 milhões precisarão de reabilitação auditiva. Some-se a isso o impacto econômico. A perda auditiva não tratada custa cerca de US$ 980 bilhões por ano à economia global. Esse é o tamanho do tema quando ele é tratado como deve ser: uma questão de saúde pública, produtividade e qualidade de vida.

Apesar de a perda auditiva ser mais comum na terceira idade, por fatores naturais do envelhecimento e pelo aumento da expectativa de vida, ela há muito tempo deixou de ser um problema restrito aos idosos. 

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O que muda agora é a velocidade com que o quadro aparece em faixas etárias jovens, impulsionado por um hábito cotidiano: usar fones por longos períodos, em volume alto, além de shows, academias, transporte público e outros ambientes com ruído intenso. 

Esse avanço entre jovens costuma ser “silencioso” por um motivo simples. 

A perda auditiva pode começar de forma gradual, e a pessoa se adapta sem perceber. 

Erica Bacchetti

Ainda assim, há sinais que merecem atenção, especialmente quando se repetem, como zumbido frequente, tontura e dificuldade de compreender palavras, mesmo em ambientes silenciosos. 

Em muitos casos, o indivíduo “ouve”, mas não entende com clareza, num indício clássico de que não se trata apenas de volume, e sim de qualidade de percepção e processamento do som.

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O alerta é ainda mais importante porque a perda auditiva compromete muito mais do que a audição em si. Em crianças e adolescentes, ela pode afetar desenvolvimento de linguagem e aprendizagem, com impacto direto no desempenho escolar, muitas vezes interpretado como desatenção ou falta de interesse, quando o problema real é simplesmente não ouvir o professor com nitidez. 

Nos idosos, a discussão ganha outra camada. A perda auditiva acelera o declínio cognitivo e pode agravar quadros de demência. 

Mas, do ponto de vista da prevenção, é justamente por isso que o foco nos jovens é tão estratégico. Se existe um contingente enorme exposto a um risco evitável, reduzir esse risco hoje significa diminuir impactos acumulados no futuro, seja na vida social, na autonomia, na comunicação, e na saúde cerebral ao longo do envelhecimento.

Vivemos em um mundo barulhento e hiperconectado. E isso exige uma mudança de paradigma: cuidar da audição precisa ser tão rotineiro quanto acompanhar colesterol, glicemia ou pressão. 

A perda auditiva é frequentemente progressiva; quando não é tratada logo no início, pode avançar, reduzir a capacidade de escuta e prejudicar a compreensão de fala de forma irreversível. 

Para os jovens, a mensagem é não é normal sair do fone com zumbido; não é normal precisar aumentar o volume o tempo todo; e não é normal sentir dificuldade recorrente para entender palavras em situações cotidianas. A boa notícia é que uma parte importante desse risco é evitável. Isso passa por reduzir o volume, fazer pausas, limitar tempo de exposição, preferir fones que isolem ruído (para não “compensar” aumentando o volume) e, sobretudo, adotar avaliação periódica quando houver sintomas.

A audiometria deveria entrar na rotina, assim como outros exames preventivos. Quanto antes o jovem ajustar hábitos de escuta e buscar avaliação diante de sinais como zumbido e dificuldade de compreensão, maior a chance de evitar danos permanentes e preservar qualidade de vida no longo prazo.